Bíblia antes, Tradição depois | Por uma leitura contínua e sequencial das Escrituras
O tempo passa e a gente faz uma releitura do que ficou para trás, e é natural que isso aconteça, mas a pessoa que fez ou deixou de fazer lá atrás não é a mesma pessoa que hoje faz memória do que fez ou deixou de fazer. Os feitos, os malfeitos e os não feitos são escrutinados, via de regra, por gente bem diferente do agente de outrora. Em resumo, o analista e o agente, mesmo que possuam o mesmo CPF, não são a mesma pessoa.
Pessoas diferentes, quando muito, têm olhares similares, mas jamais idênticos. E mesmo que ao final ambos os olhares convirjam para o mesmo lugar, se o tempo é outro, tudo é diferente. O anacronismo dos olhares é a raiz de muita injustiça que cometemos. Não existe como sermos justos tentando nos colocar no “lugar” do outro, mas tão somente quando nos colocamos no “tempo” do outro é que discernimos corretamente.
O outro pode ser você em outro tempo. Portanto, tome cuidado para não ser anacrônico nas memórias que você faz de si; tome cuidado para não passar pano para seus erros de outrora só porque hoje está tudo bem e tome cuidado para não reprovar uma virtude sua no dia que se chama ontem só porque no dia que se chama hoje as coisas não estão como você gostaria que estivessem.
Portanto, seja prudente e evite anacronismos ao fazer memória da natividade de Jesus de Nazaré, o Cristo ressurreto. A fartura da sua ceia de Natal nada tem a ver com aquela noite. Os presentes com os quais você bajula os seus nada têm a ver com aquela mirra, aquele ouro e aquele incenso. As cantatas triunfalistas da sua comunidade nada têm a ver com a angústia daquela mãe e daquele pai naquela noite. Sua correria na noite de Natal, carregando sua família pra lá e para cá a fim de não perder a noite festiva, nada tem a ver com a correria daquela família em fuga para o Egito.
Evite os anacronismos e talvez você discirna o significado daquela noite e os passos que você deu ontem e os que dá hoje.
No Caminho, na Verdade e na Vida,
Rev. Moacir Gabriel
Capelão